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sexta-feira, 4 de março de 2011

É querer estar preso por vontade...

Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;

É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

Luís de Camões

domingo, 16 de janeiro de 2011

Horas

Deus está em tudo
sem limites
pois é senhor da vida
e move o tempo.
Ele é aquele relógio
singular
que roda sem parar
e marca a hora.
A nós nada nos resta
nem o dom de sustê-lo
nem tão-pouco
o poder de lhe dar corda.


Edgar Carneiro
Périplo

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Inês de Castro

Eu, Inês apaixonada,
Estendo os braços,
Em cada alvorada,
E grito o teu nome … Pedro…
Mas o vento gélido
Não me traz o teu desejo,
Nem o eco da tua voz,
Que tanto almejo!

Estou tão perdida, amor,
Tão desgraçada!
Pelos esbirros do Rei
Fui maltratada.
Sinto a brisa
Como um longo beijo teu …
Onde estás, amado meu?

Mas sei que haverá
Uma terna madrugada,
Em que em teus braços
Acordarei.
Bela e desejada,
Na Fonte dos Amores,
Tão celebrada.
E viveremos o nosso sonho,
Eternamente,
Em epopeias, trovas
E em toda a glória,
Conhecidos para todo o sempre
Como os amantes mais trágicos
Da nossa História.

Maria Teresa Rowett

sábado, 8 de janeiro de 2011

Fantasia

Do seu longínquo reino cor-de-rosa,

Voando pela noite silenciosa,

A fada das crianças vem, luzindo.

Papoulas a coroam, e, cobrindo

Seu corpo todo, a tornam misteriosa.



À criança que dorme chega leve,

E, pondo-lhe na fronte a mão de neve,

Os seus cabelos de oiro acaricia.

E sonhos lindos, como ninguém teve,

A seguir a criança principia.



E todos os brinquedos se transformam

Em coisas vivas, e um cortejo formam:

Cavalos e soldados e bonecas,

Ursos pretos, que vêm, vão e tornam,

E palhaços que tocam em rabecas…



E há figuras pequenas e engraçadas

Que brincam e dão saltos e passadas…

Mas vem o dia, e, leve e graciosa,

Pé ante pé, volta a melhor das fadas

Ao seu longínquo reino cor-de-rosa.

Fernando Pessoa, Poesias Inéditas

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Soneto

Enquanto quis Fortuna que tivesse
Esperança de algum contentamento,
O gosto de um suave pensamento
Me fez que seus versos escrevesse.

Porém, temendo Amor que aviso desse
Minha escritura a algum juízo isento,
Escureceu-me o engenho co tormento,
Para que seus enganos não dissesse.

Ó vós que Amor obriga a ser sujeitos
A diversas vontades! Quando lerdes
Num breve livro casos tão diversos,

Verdades puras são, e não defeitos...
E sabei que, segundo o amor tiverdes,
Tereis o entendimento de meus versos!

Luís Vaz de Camões

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Pergunta

Quem vem de longe e sabe o nome do meu lugar
e levou o caminho das conchas em mar
e dos olhos em rio
— quem vem de longe chorar por mim?

Quem sabe que eu findo de dureza
e condensa ternura em suas mãos
para a derramar em afagos
por mim?

Quem ouviu a angústia do meu brado,
sirene de um navio a vadiar no largo,
e me traz seus beijos e sua cor,
perdendo-se na bruma das madrugadas
por mim?

Quem soube das asperezas da viagem
e pediu o pão negado
e o suor ao corpo torturado,
por mim? por mim?

Quem gerou o mundo e lhe deu seu nome
e seu tamanho — imenso, imenso,
e em mim cabe?
 
 
Fernando Namora

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

O sal da língua

Escuta, escuta: tenho ainda

uma coisa a dizer.

Não é importante, eu sei, não vai

salvar o mundo, não mudará

a vida de ninguém - mas quem

é hoje capaz de salvar o mundo

ou apenas mudar o sentido

da vida de alguém?

Escuta-me, não te demoro.

É coisa pouca, como a chuvinha

que vem vindo devagar.

São três, quatro palavras, pouco

mais. Palavras que te quero confiar,

para que não se extinga o seu lume,

o seu lume breve.

Palavras que muito amei,

que talvez ame ainda.

Elas são a casa, o sal da língua.

Eugénio de Andrade

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Soneto do amor total

Amo-te tanto meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te enfim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.

Vinícius de Moraes

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Pergunta

Quem vem de longe e sabe o nome do meu lugar
e levou o caminho das conchas em mar
e dos olhos em rio
— quem vem de longe chorar por mim?

Quem sabe que eu findo de dureza
e condensa ternura em suas mãos
para a derramar em afagos
por mim?

Quem ouviu a angústia do meu brado,
sirene de um navio a vadiar no largo,
e me traz seus beijos e sua cor,
perdendo-se na bruma das madrugadas
por mim?

Quem soube das asperezas da viagem
e pediu o pão negado
e o suor ao corpo torturado,
por mim? por mim?

Quem gerou o mundo e lhe deu seu nome
e seu tamanho — imenso, imenso,
e em mim cabe?


Fernando Namora

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Ilha

Deitada és uma ilha E raramente

surgem ilhas no mar tão alongadas

com tão prometedoras enseadas

um só bosque no meio florescente



promontórios a pique e de repente

na luz de duas gémeas madrugadas

o fulgor das colinas acordadas

o pasmo da planície adolescente



Deitada és uma ilha Que percorro

descobrindo-lhe as zonas mais sombrias

Mas nem sabes se grito por socorro



ou se te mostro só que me inebrias

Amiga amor amante amada eu morro

da vida que me dás todos os dias


David Mourão-Ferreira

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Quando eu nasci

Quando eu nasci,

ficou tudo como estava,

Nem homens cortaram veias,

nem o Sol escureceu,

nem houve Estrelas a mais...

Somente,

esquecida das dores,

a minha Mãe sorriu e agradeceu.


Quando eu nasci,

não houve nada de novo

senão eu.


As nuvens não se espantaram,

não enlouqueceu ninguém...


P'ra que o dia fosse enorme,

bastava

toda a ternura que olhava

nos olhos de minha Mãe...


José Régio

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Preencho o meu pôr do sol

Preencho o meu pôr do sol,

As minhas horas,

Os meus séculos

Com saudades de fim de tarde!

Vens sorrindo estrelas...

E anuncias luares de Janeiro...

Contemplo-te deste lado das horas tardias

E vejo-te no espelho da ausência.

Para lá do infinito da minha alma,

Construo a ponte que me leva a ti

E agarro a mão

Que me faz atravessar oceanos de carinho!

Na orla do meu caminho para ti,

Rompo a queratina do tempo

E a cartilagem da dor,

Toco-te a serenidade,

A tua linha de horizonte que desconheço

E encontro afagos,

Vontade de encher vazios,

Asas de ternuras

Entranhadas na ausência!

 
(autor não identificado)

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Liberdade

Ser livre é querer ir e ter um rumo

e ir sem medo,

mesmo que sejam vãos os passos.

É pensar e logo

transformar o fumo

do pensamento em braços.

É não ter pão nem vinho,

só ver portas fechadas e pessoas hostis

e arrancar teimosamente do caminho

sonhos de sol

com fúrias de raiz.

É estar atado,amordaçado,em sangue,exausto

e,mesmo assim,

só de pensar gritar

gritar

e só de pensar ir

ir e chegar ao fim.


Armindo Rodrigues

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

o tempo, subitamente solto pelas ruas e pelos dias

o tempo, subitamente solto pelas ruas e pelos dias,

como a onda de uma tempestade a arrastar o mundo,

mostra-me o quanto te amei antes de te conhecer.

eram os teus olhos, labirintos de água, terra, fogo, ar,

que eu amava quando imaginava que amava. era a tua

a tua voz que dizia as palavras da vida. era o teu rosto.

era a tua pele. antes de te conhecer, existias nas árvores

e nos montes e nas nuvens que olhava ao fim da tarde.

muito longe de mim, dentro de mim, eras tu a claridade.


José Luís Peixoto

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Alma minha gentil, que te partiste - A um Amor Maior

Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida, descontente,
Repousa lá no Céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste.


Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.


E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,


Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.


Luís Vaz de Camões

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

História de uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar

“À beira do vazio compreendeu o mais importante: que só voa quem se atreve a fazê-lo.”

Luís Sepúlveda

sábado, 14 de agosto de 2010

Lenda do Oriente


Conta uma popular lenda do Oriente, que um jovem chegou à beira de um oásis, junto a um povoado e, aproximando-se de um velho, perguntou-lhe:

-"Que tipo de pessoas vive neste lugar?"

Perguntou por sua vez o ancião:

-"Que tipo de pessoa vive no lugar de onde você vem?"

Respondeu-lhe o rapaz:

-"Oh! Um grupo de egoístas e malvados. Estou satisfeito de haver saído de lá."

A isso o velho replicou:

-"A mesma coisa você haverá de encontrar por aqui."

No mesmo dia, um outro jovem se acercou do oásis para beber água e vendo o ancião perguntou-lhe:

-"Que tipo de pessoas vive por aqui?"

O velho respondeu com a mesma pergunta:

-"Que tipo de pessoas vive no lugar de onde você vem?"

O rapaz respondeu:

-"Um magnífico grupo de pessoas, amigas, honestas, hospitaleiras. Fiquei muito triste por ter de deixá-las".

Respondeu o ancião:

-"O mesmo encontrará por aqui".

Um homem que havia escutado as duas conversas perguntou ao velho:

-"Como é possível dar respostas tão diferentes à mesma pergunta?"

E o velho respondeu:

-"Cada um carrega no seu coração o meio ambiente em que vive. Aquele que nada encontrou de bom nos lugares por onde passou, não poderá encontrar outra coisa por aqui. Aquele que encontrou amigos ali, também os encontrará aqui."

"Somos todos viajantes no tempo e o futuro de cada um de nós está escrito no passado. Ou seja, cada um encontra na vida exatamente aquilo que traz dentro de si mesmo. O ambiente, o presente e o futuro somos nós que criamos e isso só depende de nós mesmos."

(Desconheço o Autor)
Viajantes no tempo
Fonte: Mensagens e Poemas

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

A Grande Esfinge do Egipto

A Grande Esfinge do Egito sonha por este papel dentro...
Escrevo — e ela aparece-me através da minha mão transparente
E ao canto do papel erguem-se as pirâmides...
Escrevo — perturbo-me de ver o bico da minha pena
Ser o perfil do rei Quéops ...
De repente paro...
Escureceu tudo...

Caio por um abismo feito de tempo...

Estou soterrado sob as pirâmides a escrever versos à luz clara deste candeeiro
E todo o Egito me esmaga de alto através dos traços que faço com a pena...

Ouço a Esfinge rir por dentro
O som da minha pena a correr no papel...
Atravessa o eu não poder vê-la uma mão enorme,
Varre tudo para o canto do teto que fica por detrás de mim,
E sobre o papel onde escrevo, entre ele e a pena que escreve
Jaz o cadáver do rei Quéops, olhando-me com olhos muito abertos,
E entre os nossos olhares que se cruzam corre o Nilo
E uma alegria de barcos embandeirados erra
Numa diagonal difusa
Entre mim e o que eu penso...

Funerais do rei Quéops em ouro velho e Mim! ...

Fernando Pessoa

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Sacode as nuvens

Sacode as nuvens que te poisam nos cabelos,

Sacode as aves que te levam o olhar.

Sacode os sonhos mais pesados do que as pedras.



Porque eu cheguei e é tempo de me veres,

Mesmo que os meus gestos te trespassem

De solidão e tu caias em poeira,

Mesmo que a minha voz queime o ar que respiras

E os teus olhos nunca mais possam olhar.
 
 
Sophia de Mello Breyner

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Balada de sempre

Espero

a tua vinda,

a tua vinda,

em dia de lua cheia.

debruço-me sobre a noite

inventando crescentes e luares.

Espero o momento da chegada

com o cansaço e o ardor de todas as chegadas.

Rasgarás nuvens, estradas,

abrindo clareiras

nas sebes e nas ciladas.

Saltarás por cima de mares,

de planícies e relevos

- ânsia alada

no meu desejo imaginada

Mas

enquanto deixo a janela aberta

para entrares

o mar aí além,

lambe-me os braços hirtos,

braços verdes

algas de sonho

- e desenha ironias na areia molhada.


Fernando Namora