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quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Soneto do amor total

Amo-te tanto meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te enfim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.

Vinícius de Moraes

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Pergunta

Quem vem de longe e sabe o nome do meu lugar
e levou o caminho das conchas em mar
e dos olhos em rio
— quem vem de longe chorar por mim?

Quem sabe que eu findo de dureza
e condensa ternura em suas mãos
para a derramar em afagos
por mim?

Quem ouviu a angústia do meu brado,
sirene de um navio a vadiar no largo,
e me traz seus beijos e sua cor,
perdendo-se na bruma das madrugadas
por mim?

Quem soube das asperezas da viagem
e pediu o pão negado
e o suor ao corpo torturado,
por mim? por mim?

Quem gerou o mundo e lhe deu seu nome
e seu tamanho — imenso, imenso,
e em mim cabe?


Fernando Namora

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Ilha

Deitada és uma ilha E raramente

surgem ilhas no mar tão alongadas

com tão prometedoras enseadas

um só bosque no meio florescente



promontórios a pique e de repente

na luz de duas gémeas madrugadas

o fulgor das colinas acordadas

o pasmo da planície adolescente



Deitada és uma ilha Que percorro

descobrindo-lhe as zonas mais sombrias

Mas nem sabes se grito por socorro



ou se te mostro só que me inebrias

Amiga amor amante amada eu morro

da vida que me dás todos os dias


David Mourão-Ferreira

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Quando eu nasci

Quando eu nasci,

ficou tudo como estava,

Nem homens cortaram veias,

nem o Sol escureceu,

nem houve Estrelas a mais...

Somente,

esquecida das dores,

a minha Mãe sorriu e agradeceu.


Quando eu nasci,

não houve nada de novo

senão eu.


As nuvens não se espantaram,

não enlouqueceu ninguém...


P'ra que o dia fosse enorme,

bastava

toda a ternura que olhava

nos olhos de minha Mãe...


José Régio

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Preencho o meu pôr do sol

Preencho o meu pôr do sol,

As minhas horas,

Os meus séculos

Com saudades de fim de tarde!

Vens sorrindo estrelas...

E anuncias luares de Janeiro...

Contemplo-te deste lado das horas tardias

E vejo-te no espelho da ausência.

Para lá do infinito da minha alma,

Construo a ponte que me leva a ti

E agarro a mão

Que me faz atravessar oceanos de carinho!

Na orla do meu caminho para ti,

Rompo a queratina do tempo

E a cartilagem da dor,

Toco-te a serenidade,

A tua linha de horizonte que desconheço

E encontro afagos,

Vontade de encher vazios,

Asas de ternuras

Entranhadas na ausência!

 
(autor não identificado)

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Liberdade

Ser livre é querer ir e ter um rumo

e ir sem medo,

mesmo que sejam vãos os passos.

É pensar e logo

transformar o fumo

do pensamento em braços.

É não ter pão nem vinho,

só ver portas fechadas e pessoas hostis

e arrancar teimosamente do caminho

sonhos de sol

com fúrias de raiz.

É estar atado,amordaçado,em sangue,exausto

e,mesmo assim,

só de pensar gritar

gritar

e só de pensar ir

ir e chegar ao fim.


Armindo Rodrigues

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

o tempo, subitamente solto pelas ruas e pelos dias

o tempo, subitamente solto pelas ruas e pelos dias,

como a onda de uma tempestade a arrastar o mundo,

mostra-me o quanto te amei antes de te conhecer.

eram os teus olhos, labirintos de água, terra, fogo, ar,

que eu amava quando imaginava que amava. era a tua

a tua voz que dizia as palavras da vida. era o teu rosto.

era a tua pele. antes de te conhecer, existias nas árvores

e nos montes e nas nuvens que olhava ao fim da tarde.

muito longe de mim, dentro de mim, eras tu a claridade.


José Luís Peixoto

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Alma minha gentil, que te partiste - A um Amor Maior

Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida, descontente,
Repousa lá no Céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste.


Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.


E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,


Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.


Luís Vaz de Camões

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

História de uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar

“À beira do vazio compreendeu o mais importante: que só voa quem se atreve a fazê-lo.”

Luís Sepúlveda

sábado, 14 de agosto de 2010

Lenda do Oriente


Conta uma popular lenda do Oriente, que um jovem chegou à beira de um oásis, junto a um povoado e, aproximando-se de um velho, perguntou-lhe:

-"Que tipo de pessoas vive neste lugar?"

Perguntou por sua vez o ancião:

-"Que tipo de pessoa vive no lugar de onde você vem?"

Respondeu-lhe o rapaz:

-"Oh! Um grupo de egoístas e malvados. Estou satisfeito de haver saído de lá."

A isso o velho replicou:

-"A mesma coisa você haverá de encontrar por aqui."

No mesmo dia, um outro jovem se acercou do oásis para beber água e vendo o ancião perguntou-lhe:

-"Que tipo de pessoas vive por aqui?"

O velho respondeu com a mesma pergunta:

-"Que tipo de pessoas vive no lugar de onde você vem?"

O rapaz respondeu:

-"Um magnífico grupo de pessoas, amigas, honestas, hospitaleiras. Fiquei muito triste por ter de deixá-las".

Respondeu o ancião:

-"O mesmo encontrará por aqui".

Um homem que havia escutado as duas conversas perguntou ao velho:

-"Como é possível dar respostas tão diferentes à mesma pergunta?"

E o velho respondeu:

-"Cada um carrega no seu coração o meio ambiente em que vive. Aquele que nada encontrou de bom nos lugares por onde passou, não poderá encontrar outra coisa por aqui. Aquele que encontrou amigos ali, também os encontrará aqui."

"Somos todos viajantes no tempo e o futuro de cada um de nós está escrito no passado. Ou seja, cada um encontra na vida exatamente aquilo que traz dentro de si mesmo. O ambiente, o presente e o futuro somos nós que criamos e isso só depende de nós mesmos."

(Desconheço o Autor)
Viajantes no tempo
Fonte: Mensagens e Poemas

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

A Grande Esfinge do Egipto

A Grande Esfinge do Egito sonha por este papel dentro...
Escrevo — e ela aparece-me através da minha mão transparente
E ao canto do papel erguem-se as pirâmides...
Escrevo — perturbo-me de ver o bico da minha pena
Ser o perfil do rei Quéops ...
De repente paro...
Escureceu tudo...

Caio por um abismo feito de tempo...

Estou soterrado sob as pirâmides a escrever versos à luz clara deste candeeiro
E todo o Egito me esmaga de alto através dos traços que faço com a pena...

Ouço a Esfinge rir por dentro
O som da minha pena a correr no papel...
Atravessa o eu não poder vê-la uma mão enorme,
Varre tudo para o canto do teto que fica por detrás de mim,
E sobre o papel onde escrevo, entre ele e a pena que escreve
Jaz o cadáver do rei Quéops, olhando-me com olhos muito abertos,
E entre os nossos olhares que se cruzam corre o Nilo
E uma alegria de barcos embandeirados erra
Numa diagonal difusa
Entre mim e o que eu penso...

Funerais do rei Quéops em ouro velho e Mim! ...

Fernando Pessoa

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Sacode as nuvens

Sacode as nuvens que te poisam nos cabelos,

Sacode as aves que te levam o olhar.

Sacode os sonhos mais pesados do que as pedras.



Porque eu cheguei e é tempo de me veres,

Mesmo que os meus gestos te trespassem

De solidão e tu caias em poeira,

Mesmo que a minha voz queime o ar que respiras

E os teus olhos nunca mais possam olhar.
 
 
Sophia de Mello Breyner

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Balada de sempre

Espero

a tua vinda,

a tua vinda,

em dia de lua cheia.

debruço-me sobre a noite

inventando crescentes e luares.

Espero o momento da chegada

com o cansaço e o ardor de todas as chegadas.

Rasgarás nuvens, estradas,

abrindo clareiras

nas sebes e nas ciladas.

Saltarás por cima de mares,

de planícies e relevos

- ânsia alada

no meu desejo imaginada

Mas

enquanto deixo a janela aberta

para entrares

o mar aí além,

lambe-me os braços hirtos,

braços verdes

algas de sonho

- e desenha ironias na areia molhada.


Fernando Namora

sábado, 17 de julho de 2010

A Minha’Alma

A Minh’Alma, só, triste, deserdada,
É caravela d’Azinho ao mar afeita.
Tão segura que as vagas não respeita,
Nas marés d’Outono… levantadas.

De velas brancas - azul na proa ousada-
Aos credos sem Credo não sujeita,
Singra liberta, nobre e não perfeita,
Ao encontro da praia procurada.

Mas, no mar, em lides acometendo,
De flâmulas içadas… aos ventos caídos,
Mais de mil ocultas magos padecendo.

São os danos que ficam e vão vivendo,
Da saudade doce… amores perdidos,
Na manhã… de tarde louca… descendo.

Francisco Padeira

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Cavalo à Solta


Minha laranja amarga e doce
meu poema
feito de gomos de saudade
minha pena
pesada e leve
secreta e pura
minha passagem para o breve, breve
instante da loucura


Minha ousadia
meu galope
minha rédea
meu potro doido
minha chama
minha réstia
de luz intensa
de voz aberta
minha denúncia do que pensa
do que sente a gente certa


Em ti respiro
em ti eu provo
por ti consigo
esta força que de novo
em ti persigo
em ti percorro
cavalo à solta
pela margem do teu corpo


Minha alegria
minha amargura
minha coragem de correr contra a ternura.


Por isso digo
canção castigo
amêndoa travo corpo alma amante amigo
por isso canto
por isso digo
alpendre casa cama arca do meu trigo


Meu desafio
minha aventura
minha coragem de correr contra a ternura


Ary dos Santos

domingo, 4 de julho de 2010

Conheço o Sal

Conheço o sal da tua pele seca
depois que o estio se volveu inverno
da carne repousando em suor nocturno.

Conheço o sal do leite que bebemos
quando das bocas se estreitavam lábios
e o coração no sexo palpitava.

Conheço o sal dos teus cabelos negros
ou louros ou cinzentos que se enrolam
neste dormir de brilhos azulados.

Conheço o sal que resta em minha mãos
como nas praias o perfume fica
quando a maré desceu e se retrai.

Conheço o sal da tua boca, o sal
da tua língua, o sal de teus mamilos,
e o da cintura se encurvando de ancas.

A todo o sal conheço que é só teu,
ou é de mim em ti, ou é de ti em mim,
um cristalino pó de amantes enlaçados.


Jorge de Sena

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Estrela da Tarde

Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca, tardando-lhe o beijo, mordia
Quando à boca da noite surgiste na tarde tal rosa tardia

Quando nós nos olhámos tardámos no beijo que a boca pedia

E na tarde ficámos unidos ardendo na luz que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia

Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza

Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram
Dos nocturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram

Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles que à noite amando se deram
E entre os braços da noite de tanto se amarem, vivendo morreram

Eu não sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso, se é pranto
É por ti que adormeço e acordo e acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto

Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto.


Ary dos Santos

terça-feira, 29 de junho de 2010

Desconfiança...

Que vale a vida afinal

quando chegamos a este ponto?

Deixou de ser romance:

é crónica banal

ou conto.


Vale a pena seguir?

Sem aquele entusiasmo

aquelas ânsias,

sem aquela força de querer,

só para continuar, e se repetir...

( mais pelo hábito da vida que pela alegria de viver?)


Vale a pena continuar?

Ou é melhor fugir? ( fugir ou parar

que são formas diferentes de morrer...)


Já de nada me espanto,

talvez seja tudo paradoxal

mas começo a desconfiar que está chegando esse momento

extraordinário,

em que devo me recolher para ouvir apenas o canto

de meu coração solitário...


J.G.de Araújo Jorge

sábado, 26 de junho de 2010

Da solidão

Inquieta chuva, inquieta me dispersa,

esquecida a tradição e o cansado som.


Dentro e fora de mim tudo é deserto

como se as ervas fossem arrancadas

ou se esgotasse a dor por que se chora.


Na grande solidão me basta, e a contemplo

para o sonho interior que me resolve!


Tão fácil é esperar, que já nem sinto

o que vem a dormir ou a morrer

na mesma angústia que

o silêncio envolve.
 
Maria Alberta Menéres

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Gostaria

Queria compartilhar contigo os momentos mais simples
e sem importância.
Por exemplo:
sair contigo para passear, sentir-te apoiada em meu braço,
ver-te feliz ao meu lado
alheia a todo mundo que passasse.

Gostaria de sair contigo para ouvir música, ir ao cinema,
tomar sorvete, sentar num restaurante
diante do mar,
olhar as coisas, olhar a vida, olhar o mundo
despreocupadamente,
e conversar sobre "nós" – esse "nós" clandestino
que se divide em "tu e eu"
quando chega gente.

Encontrar alguém que perguntasse: "Então, como vão vocês?"
E me chamasse pelo nome, e te chamasse pelo nome
e juntasse assim nossos nomes, naturalmente,
na mesma preocupação.

Gostaria de poder de repente te dizer:
Vamos voltar pra casa...
( Como se felicidade pudesse ser uma coisa
a que tivéssemos direito como toda gente)
Queria partilhar contigo os momentos menores
da minha vida,
porque os grandes já são teus.


JG de Araujo Jorge