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domingo, 18 de abril de 2010

Descalça vai para a fonte




Descalça vai para a fonte
Leonor pela verdura;
Vai fermosa, e não segura.

Leva na cabeça o pote,
O testo nas mãos de prata,
Cinta de fina escarlata,
Sainho de camelote;
Traz a vasquinha de cote,
Mais branca que a neve pura.
Vai fermosa e não segura.

Descobre a touca a garganta,
Cabelos de ouro entrançado
Fita de cor de encarnado,
Tão linda que o mundo espanta.
Chove nela graça tanta,
Que dá graça à fermosura.
Vai fermosa e não segura.



Luís Vaz de Camões

sábado, 17 de abril de 2010

Lágrima de preta






Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.


Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterelizado.


Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.


Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.


Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:


Nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.




António Gedeão

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Dei-te...

For you forever.

Dei-te...
Dei-te as mãos transbordantes de carinho,
afagos ternos que minha alma traga...
E a minha boca transformei em taça
Onde acolho o perfume do teu vinho!

Dei-te o meu corpo como o sol se entrega
ao poente, no entardecer do dia...
E no bailado de insana alegria,
a euforia com o amor congrega...

Dei-te a alma e acolhi o teu cansaço,
e dos teus passos fiz minha estrada,
Para que não fosses mais assim, sózinho...

Dei-te os braços em tão perfeito ninho...
Mais que amante, tornei-me tua amada.
E fiz-me assim, para sempre o teu regaço!

Zélia Nicolodi

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Para ser grande, sê inteiro: nada



Teu exagera ou exclui.

Sê todo em cada coisa. Põe quanto és

No mínimo que fazes,

Assim em cada lago a lua toda

Brilha, porque alta vive.



Fernando Pessoa

terça-feira, 13 de abril de 2010

Passamos pelas coisas sem as ver,






Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão apodrecidos.


Eugénio de Andrade